
Como a Natureza Conecta usa a interação humano‑animal para curar traumas
Em meio à crise de abandono e violência que afeta milhares de crianças e adolescentes em São Paulo, a Natureza Conecta tem se destacado ao aplicar a Terapia Assistida por Animais (TAA) como ferramenta de reconstrução emocional. A organização, que atende jovens em acolhimento institucional de diversas cidades do estado, oferece sessões estruturadas com cães, cavalos, cabras, porcos e até mesmo vacas e bois, sempre sob a supervisão de uma equipe multidisciplinar.
“A chegada a uma família por adoção representa o início de uma nova relação, mas não apaga automaticamente experiências anteriores. Medo de uma nova rejeição, insegurança, dificuldade de confiar são sentimentos que podem acompanhar crianças e adolescentes durante esse processo,” explica Laiz Moreno, psicóloga da Natureza Conecta. Segundo ela, o trabalho terapêutico não exige que a criança confie imediatamente, mas cria experiências repetidas de segurança e previsibilidade, a partir das quais novos vínculos podem ser construídos.
Na prática, a aproximação com os animais acontece gradualmente. Observação de reações, respeito ao espaço do animal e pequenas responsabilidades de cuidado permitem trabalhar limites, reciprocidade e autorregulação. Daniela Gurgel, médica‑veterinária e fundadora da Natureza Conecta ressalta que “a relação com o animal oferece uma experiência diferente: ele responde ao cuidado, estabelece limites, exige atenção aos seus sinais e não impõe julgamentos. É nessa interação que conseguimos trabalhar, de forma concreta, habilidades como empatia, autorregulação, confiança e respeito ao outro.”
O caso do menino e do galo: quando o animal abre portas para o luto
Um exemplo marcante aconteceu com um menino de sete anos que havia presenciado o assassinato do próprio pai. Durante o processo de aproximação com a família que o adotaria, ele enfrentava dificuldades de adaptação e de lidar com a perda. Quando o galo Chico, resgatado pela organização, foi atacado e morreu, a equipe organizou uma despedida junto às crianças.
“Diante do corpo do galo, o menino perguntou se seria possível abrir seus olhos para que ele voltasse à vida. Logo depois, relacionou aquela situação à própria história e perguntou se seu pai também poderia ter voltado caso seus olhos tivessem sido abertos,” contou a equipe. A situação se tornou uma oportunidade para trabalhar temas de morte, luto e impotência. “O animal muitas vezes cria uma situação concreta a partir da qual a criança consegue expressar algo que ainda não conseguia colocar em palavras. Não é o animal que resolve o trauma ou constrói o vínculo familiar, mas ele pode funcionar como uma ponte para que determinadas emoções sejam reconhecidas e trabalhadas,” explica Daniela.
Desafios e perspectivas: o que a estatística nos diz
Segundo o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), cerca de 37 mil crianças e adolescentes vivem em serviços de acolhimento no Brasil. O Conselho Nacional de Justiça registra que apenas 6 mil desses indivíduos estão disponíveis para adoção, enquanto existem aproximadamente 32 mil pretendentes habilitados. A lacuna entre oferta e demanda evidencia que, além de logística, há uma necessidade urgente de intervenção psicossocial para superar os traumas que impedem a adaptação.
Ao integrar a TAA nesses contextos, a Natureza Conecta demonstra que a interação com animais pode ser mais do que um complemento recreativo: ela pode ser um catalisador para a reconstrução de confiança e de vínculos afetivos. A abordagem, baseada em objetivos terapêuticos claros e em observação cuidadosa dos sinais animais, oferece uma alternativa prática e empática para lidar com as cicatrizes emocionais de crianças e adolescentes que passaram por abandono, violência ou longos períodos de acolhimento institucional.
