Rosania Rocha

Após 18 anos ao lado da Yorkshire Lilly, cantora e pastora reflete sobre o vínculo entre humanos e animais e sobre a possibilidade de reencontrá-los na eternidade.

A despedida de Lilly, uma Yorkshire que durante 18 anos fez parte da vida da cantora, escritora e pastora Rosania Rocha, abriu uma ferida difícil de explicar em palavras.

Mais do que um animal de estimação, Lilly era companhia, família e presença diária. Ao longo de quase duas décadas, as duas construíram uma relação marcada por afeto, cuidado e uma intimidade que, para Rosania, ultrapassava aquilo que muitas pessoas conseguem compreender quando olham para a relação entre um ser humano e seu animal.

Nos últimos dias de vida, Lilly já enfrentava um quadro de sofrimento intenso. Depois de uma avaliação veterinária, a eutanásia foi indicada como uma forma de interromper aquele sofrimento. Para Rosania, tomar a decisão foi uma das experiências mais dolorosas de sua vida.

A decisão, porém, também trouxe uma reflexão sobre o verdadeiro significado do amor.

“Às vezes, amar também é saber a hora de deixar partir. Quando não queremos mais prolongar o sofrimento de quem amamos, precisamos colocar o bem daquele que está sofrendo acima da nossa própria vontade de continuar tendo por perto.”

A experiência de Rosania também revelou algo que ela considera uma das características mais bonitas dos animais: a capacidade de perceber aquilo que sentimos.

Durante os anos em que viveram juntas, Lilly demonstrava uma sensibilidade que impressionava Rosania. Quando percebia a dona chorando, por exemplo, reagia ao sofrimento dela e chegava a uivar diante de Rosania, como se estivesse respondendo àquela dor.

Para Rosania, momentos como esse mostram que existe entre humanos e animais uma linguagem que muitas vezes não depende de palavras.

É uma relação construída por presença, olhar, companhia, rotina, cuidado e afeto.

E talvez seja justamente por isso que a perda de um animal possa provocar uma dor tão profunda.

“Era só um cachorro?”

Uma das reflexões que Rosania pretende levar adiante é justamente sobre a maneira como a sociedade encara o luto pela perda de um animal.

Para quem nunca viveu uma relação profunda com um pet, pode parecer difícil compreender a dimensão dessa dor. Mas, para quem viveu anos ao lado de um animal, a perda representa a ausência de um membro da família.

A cama fica vazia. O pote continua no mesmo lugar. Os brinquedos permanecem. A coleira fica guardada. E a casa, de repente, parece silenciosa demais.

Por isso, Rosania acredita que o sofrimento pela morte de um animal não deve ser diminuído.

Rosania Rocha
Crédito da imagem: Arquivo Pessoal

Não era “só um cachorro”. Era uma vida que fazia parte da família.

E essa experiência também despertou nela uma reflexão sobre o impacto que os animais têm na vida das pessoas.

Eles oferecem companhia, afeto, rotina e alegria. Para muitas pessoas, especialmente aquelas que vivem sozinhas ou atravessam momentos emocionalmente difíceis, um animal pode representar uma fonte diária de vínculo e acolhimento.

A ciência também tem investigado essa relação entre humanos e animais, especialmente aspectos como solidão, suporte emocional, bem-estar e saúde mental. Durante a pandemia de Covid-19, quando milhões de pessoas enfrentaram isolamento social, medo e solidão, a relação com animais de companhia ganhou ainda mais atenção.

Para Rosania, existe algo ainda mais profundo nessa relação.

“Deus criou os animais e permitiu que eles fizessem parte da nossa vida. Eles nos dão amor, companhia, alegria e, muitas vezes, parecem entender aquilo que nem conseguimos explicar.”

E se Deus também cuidar de nós através dos animais?

Essa pergunta leva Rosania para uma reflexão espiritual.

A Bíblia apresenta os animais como parte da criação de Deus desde o princípio. Eles não aparecem como algo sem importância.

No relato de Noé, por exemplo, quando Deus determina a preservação da vida através da arca, não são salvos apenas os seres humanos. Deus ordena que animais de diferentes espécies sejam levados para dentro da arca para que fossem preservados vivos.

A pergunta que nasce dessa passagem é inevitável:

Se Deus se preocupou em preservar os animais durante o dilúvio, será que não podemos imaginar que a criação de Deus tenha também uma continuidade que ainda não conseguimos compreender?

A Bíblia não oferece uma resposta definitiva sobre o destino dos animais depois da morte. Mas existem textos que abrem espaço para reflexão e esperança.

Em Eclesiastes 3:19-21, o autor compara o destino do ser humano e dos animais e faz uma pergunta profunda sobre para onde vai o espírito de cada um.

Já em Romanos 8, Paulo apresenta uma imagem ainda mais ampla: “TODA” a criação geme e aguarda a redenção.

E é no mesmo capítulo que aparece outra passagem que pode tocar profundamente quem está vivendo qualquer outro processo de luto. Em Romanos 8:26, Paulo fala sobre o Espírito Santo intercedendo por nós com “gemidos inexprimíveis”.

É uma imagem poderosa para quem está diante de uma dor que não consegue explicar.

Porque existem momentos em que a saudade é tão grande que faltam palavras.

Uma criação restaurada

Outra passagem que desperta reflexão está em Isaías 11:6-9.

O profeta descreve uma realidade de paz na qual o lobo estará com o cordeiro, o leopardo com o cabrito, o bezerro com o leão e uma criança conduzirá esses animais.

Em Isaías 65, aparece novamente a ideia de novos céus e uma nova terra, acompanhada por imagens de vida, plantio, frutos e animais vivendo em uma realidade transformada.

Esses textos não afirmam diretamente que os animais de estimação estarão no céu. Mas apresentam uma imagem importante: a esperança bíblica não é necessariamente a de uma eternidade sem criação, mas de uma criação restaurada.

E isso permite uma pergunta que Rosania considera especialmente importante:

Deus criou os animais, cuidou deles, preservou-os e os colocou nas imagens bíblicas de uma criação restaurada, por que seria impossível imaginar que eles também tenham algum lugar na eternidade de Deus?

Rosania acredita que talvez seja justamente aí que esteja a beleza da pergunta.

Deus é amor, Deus é bom e a própria Bíblia afirma que Ele tem prazer em fazer o bem, por que não poderíamos ter esperança de que a eternidade seja maior do que aquilo que conseguimos imaginar?

Em Jeremias 32:41, Deus declara: “Terei prazer em fazer-lhes bem.”

A passagem apresenta um Deus que não apenas faz o bem, mas que encontra prazer em fazê-lo.

E essa ideia pode transformar a maneira como uma pessoa enxerga a perda de um animal.

Não significa afirmar que existe uma promessa bíblica específica de que todos os pets irão para o céu. Mas significa reconhecer que a Bíblia não nos obriga a abandonar toda esperança de um reencontro.

“Eu não sei dizer com certeza como será. Mas sabendo que Deus é amor, que Ele é infinitamente bom e que Ele tem prazer em fazer o bem, eu não consigo acreditar que o amor que vivemos com nossos animais simplesmente não tenha significado nenhum diante da eternidade.”

Talvez seja justamente essa esperança que possa confortar milhares de pessoas que, como Rosania, precisaram se despedir de um animal amado.

Lilly permanece

Lilly partiu depois de 18 anos de uma história construída diariamente.

Mas, para Rosania, a morte não apaga aquilo que foi vivido.

Ficam as lembranças, os gestos, os momentos de carinho, as brincadeiras, os silêncios compartilhados e até as memórias mais difíceis dos últimos dias.

Fica também a certeza de que, até o último momento, a decisão foi tomada pensando no bem de Lilly.

E fica uma pergunta que talvez não tenha resposta definitiva nesta vida:

Sabendo que Deus é amor, então por que não poderia existir um reencontro?

Talvez ninguém consiga responder completamente.

Mas, para quem acredita em um Deus que criou, ama, cuida e restaura sua criação, talvez seja possível continuar acreditando.

Não como uma certeza que a Bíblia declarou, mas como uma esperança que o amor nos permite guardar.

E talvez seja essa a maior homenagem que Rosania possa fazer a Lilly: transformar a dor de uma despedida em uma reflexão sobre o amor que não desaparece simplesmente porque uma vida chegou ao fim.

Porque alguns vínculos de afeto são grandes demais para terminar apenas com uma despedida.